ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



_____________________________________________________________________________



13 de setembro de 2013

Servir, acompanhar, defender


Com frequência o Papa Francisco recorre ao "método de três pontos/três palavras" em seus discursos. A homilética (a metodologia da pregação) recomenda, sobretudo, a clareza da mensagem e a sua eficácia que consiste em deixar a lição gravada na memória dos ouvintes. Outra característica da pregação é a sua universalidade, exatamente como no ensinamento de Jesus: embora trate de uma situação particular, a sua sabedoria se estende ao fenômeno existencial e serve para lançar a luz da Palavra de Deus a outros casos que acontecem em circunstâncias análogas. Assim podemos ler o discurso do Papa, dirigido no último dia 10 de setembro em Roma, aos refugiados. Vale lembrar aqui um termo, criado no Leste Europeu, na época do regime comunista. Dizia-se naquele tempo de uma "emigração interior" - um termo da área de psicologia que significa a postura de se ausentar da vida pública, devido à opressão moral (e, muitas vezes, física), por parte do sistema totalitário. Pois bem... O totalitarismo não é o atributo apenas do comunismo, ou fascismo, nem se limita aos sistemas político-partidários. É algo que consegue sobreviver (e muito bem!) na sociedade dita democrática e moderna. Um desses casos é a heteronormatividade fanática, tão presente, ainda hoje, em pleno século XXI.

Como escreve Didier Eribon, no livro "Reflexões sobre a questão gay" [Ed. Companhia de Freud, Rio de Janeiro, 2008; p. 33]: Houve - e, com certeza, ainda há -uma fantasmagoria do "outro lugar" que ofereceria a possibilidade de realizar aspirações que tantas razões pareciam tornar impossíveis, em seu próprio país. (...) Hoje ainda, é permanente a migração dos gays e das lésbicas para as cidades grandes ou as capitais.

É neste contexto que leio as seguintes afirmações do Papa:
 
- Cada um de vocês traz, acima de tudo, uma riqueza humana e religiosa, uma riqueza de acolher, e não temer. Muitos de vocês são muçulmanos; de outras religiões; vêm de diferentes países, de diferentes situações. Não devemos ter medo das diferenças! A fraternidade nos faz descobrir que elas são um tesouro, um presente para todos! Vivemos a fraternidade!
 
- Quantas vezes (...)  muitas pessoas (...)  são forçados a viver em situações difíceis, às vezes degradante, sem a possibilidade de iniciar uma vida digna, para pensar em um novo futuro!
 
- Tenham sempre viva a esperança! Ajudem a recuperar a confiança! Mostrar que, com acolhida e fraternidade se pode abrir uma janela para o futuro, uma porta, e mais, se pode ainda ter futuro!
 
- Servir significa acolher a pessoa que chega, com atenção; significa que inclinar-se aos necessitados, estender-lhe a mão, sem cálculo, sem medo, com ternura e compreensão, como Jesus se inclinou para lavar os pés dos Apóstolos. Servir significa trabalhar ao lado dos mais necessitados, estabelecer com eles, antes de tudo, relações humanas, de proximidade, laços de solidariedade. Solidariedade, a palavra que assusta os países mais desenvolvidos. Eles procuram não dizê-la. É quase um palavrão para eles. Mas é a nossa palavra! Servir significa reconhecer e respeitar as exigências da justiça, esperança e procurar juntos as estradas, os percursos concretos de libertação.
 
- Os pobres também são mestres privilegiados de nosso conhecimento de Deus; A fragilidade e simplicidade deles desmascaram o nosso egoísmo, nossas falsas seguranças, nossas pretensões de autossuficiência e nos guiam à experiência da proximidade e ternura de Deus, de receber em nossa vida seu amor, sua misericórdia de Pai que, com discrição e paciente confiança, cuida de nós, de todos nós.
 
- Deste lugar de acolhida, de encontro e serviço, gostaria que partisse uma pergunta para todos, para todas as pessoas que vivem aqui nesta diocese de Roma: eu me curvo diante de quem está com dificuldades ou eu tenho com medo de sujar as mãos? Estou fechado em mim mesmo, nas minhas coisas, ou percebo quem precisa de ajuda? Sirvo somente a mim mesmo, ou sei servir aos outros como Cristo que veio para servir ao ponto de dar a sua vida? Eu olho nos olhos daqueles que pedem justiça ou dirijo o olhar para o outro lado? Para não olhar nos olhos?
 
- Este é um direito: a integração! (...) Eis, essa responsabilidade é a base ética, é a força para construir juntos. Eu me pergunto: nós acompanhamos este caminho?
 
- Defender. Servir, acompanhar significa também defender, significa colocar-se do lado de quem é mais fraco. Quantas vezes nós levantamos a voz para defender os nossos direitos, mas quantas vezes somos indiferentes aos direitos dos outros! Quantas vezes não sabemos ou não queremos dar voz a quem – como vocês – sofreram e estão sofrendo, quem viu serem pisoteados seus direitos, quem viveu tanta violência que sufocou também o desejo de ter justiça!

Nenhum comentário:

Postar um comentário